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Cinfães
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“Sinceridade e honestidade acima de tudo”: O legado de Manuel de Oliveira no seu 100.º aniversário

Atingir os 100 anos de vida é um marco que poucos alcançam, mas fazê-lo rodeado de 135 pessoas, entre família, amigos e vizinhos, é um privilégio raro. Na freguesia de Souselo, no concelho de Cinfães, o senhor Manuel de Oliveira celebrou um século de existência, na passada terça-feira, dia 24 de março.

Redação

Uma vida construída a pulso, moldada pelo trabalho árduo nas florestas, pela honestidade e por um amor inquebrável à família e à esposa. Para compreender o homem por trás do século, o Jornal A VERDADE conversou com Alice, a filha mais velha, que há 12 anos dedica os seus dias a cuidar do pai.

Do carvão nos montes à primeira fábrica de blocos

A história de Manuel de Oliveira confunde-se com a dureza de Portugal de meados do século XX. O seu percurso nunca foi facilitado por heranças ou berços de ouro. "O meu pai nunca herdou nada de ninguém, conseguiu tudo sempre com o trabalho dele", assegura Alice, a mais velha de quatro irmãos (seguida por José, António e Clara).

Manuel Oliveira foi negociante de madeira, numa época em que o trabalho exigia a força do corpo e a resistência do espírito. "Naquele tempo cortava-se a madeira à mão. Não havia tratores nem nada", explica a filha.

A família Oliveira viveu inicialmente numa "casa humilde", mas a resiliência do patriarca começou a dar frutos. O trabalho era uma constante para todos: os irmãos José e António desde cedo ajudavam o pai nos montes, mesmo com o trator, "de inverno e de verão", enquanto Alice e a mãe asseguravam o funcionamento do café da família.

Mas a visão empreendedora de Manuel não se ficou pela madeira. Quando começou a escassear a mão-de-obra para os montes, o souselense reinventou-se. "Fez uma fábrica de blocos. A primeira aqui nestas zonas não havia [fábrica] nenhuma, era só aqui. E começou a vender blocos assim para muito longe (...) construíram-se lá muitas casas com os blocos que ele fazia".

A lição maior: O valor do trabalho e a partilha

A figura de Manuel de Oliveira é descrita pela filha como a de um bom pai, mas de convicções férreas. "Foi sempre trabalhador e nós ajudamos sempre. E ele viveu assim uma vida de trabalho. E ele era sempre duro no trabalho, era rígido connosco".

Esta retidão de caráter é o legado mais valioso que deixou à descendência. Um dos netos, filho de Alice, que se encontra a trabalhar em Angola, mantém uma ligação especial com o avô. Antes de o neto partir para o estrangeiro, o conselho do avô é sempre o mesmo. "Diz-lhe sempre para ele ser uma pessoa honesta. Sinceridade para ele foi sempre o mais importante. Temos bom prestígio, bom nome, por causa de ele ser assim", orgulha-se Alice.

Outra grande lição de Manuel prendia-se com a relação com o próximo e com o valor da partilha. "Nunca nos deixava dizer mal dos outros", sublinha a filha. E essa generosidade reflete-se na abundância da família, mesmo após a grande festa de aniversário. "Tivemos ontem uma festa grande de anos mas hoje ando a despachar o que sobrou por toda a gente. Porque o meu pai sempre nos ensinou a não estragar nada e repartir com os outros".

Manuel celebrou os seus 100 anos, numa festa idealizada por Alice, mas apoiada por todos. "Os meus irmãos deixaram mesmo para o meu critério o que quero fazer". O resultado foi uma celebração com 135 pessoas. "Trouxemos os nossos amigos, os nossos vizinhos todos.  A minha tuna, da Universidade Sénior de Castelo de Paiva, veio toda para aqui. Veio o presidente da Câmara de Cinfães e o da junta de Souselo".

O momento foi de profunda emoção. "Foi muito, muito, feliz. O meu pai estava muito sereno, trouxemo-lo aqui para o salão e dava para ver que ele estava muito comovido de ver muita gente".

O segredo dos 100 anos: Caldo, moderação e mãos dadas no sofá

Como se atinge um século de vida com vitalidade? Alice tem a resposta na ponta da língua. Em termos médicos, o pai "nunca foi homem de doença", apresentando sempre "umas análises ótimas, o sistema cardíaco sempre bom". Atualmente, toma apenas um comprimido para dormir, e mesmo esse, em dose reduzida.

Na alimentação, o segredo é o mais tradicional possível. "A sopa nunca podia faltar em casa. E até hoje come o caldinho dele, que ele gosta", revela a filha. E os vícios? "Nunca fumou, nunca bebeu demasiado".

Ainda assim, no dia do seu centenário, houve espaço para um brinde especial. Quando os netos lhe ofereceram três bolos de aniversário para provar, Manuel fez um pedido. "O avô pediu um copinho de vinho". A resposta de Alice foi imediata: "Dá-se, hoje é os anos dele, dá-se. Ele gosta muito de vinho maduro". O brinde não fez estragos: "Tomou um copinho de vinho, está ótimo", assegura a filha, entre risos.

Mas talvez o maior segredo para a longevidade do Sr. Manuel de Oliveira resida no coração. O amor pela esposa, já falecida, foi a grande âncora da sua vida. "Eram um casal sempre sentados no sofá, já velhinhos, mas sempre de mãos dadas", recorda Alice com ternura.

Quando a mãe faleceu, a família temeu o pior. "Nós estávamos mesmo convencidos que ele ia atrás dela, mas a nossa família nunca o deixou sentir-se sozinho". E é precisamente esse amor incondicional da família — que não o deixou sentir a solidão — o verdadeiro motor que permitiu ao Sr. Manuel, o homem que construiu blocos de cimento e uma família unida, continuar a construir, dia após dia, um século de vida.