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Paredes
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O rosto é um desenho, o perigo é real: As lições do informático de Paredes para não sermos o produto

Hoje, 10 de fevereiro, assinala-se o Dia da Internet Mais Segura. Para assinalar a data, pedimos uma fotografia a Cláudio Oliveira, informático há 15 anos. A resposta chegou em formato de desenho, gerado por Inteligência Artificial.

 Não foi por vaidade, foi por coerência: "É uma imagem que não permite conhecer pormenores".

Num mundo onde a exposição é a norma, este especialista de Paredes começa por nos dar uma lição de privacidade antes mesmo de abrir a boca. E avisa: "temos mais telemóveis do que carros, mas continuamos sem uma 'Brigada de Trânsito' digital que nos proteja."

Se há alguém que sabe que "quando a esmola é grande, o santo desconfia", é Cláudio Oliveira. Com uma década e meia de experiência a lidar com as entranhas da informática, olha para o comportamento do utilizador comum com um misto de preocupação e pragmatismo.

Para o especialista, o maior erro da 'higiene digital' resume-se a três palavras que repetimos mecanicamente: "Next, next, next". Instalar aplicações sem ler, aceitar termos sem ver e abrir as portas da nossa vida digital a quem não conhecemos.

Mas, o perigo já não vive apenas dentro do ecrã. Cláudio alerta para um fenómeno crescente: a passagem da insegurança digital para a física. "As pessoas colocam informações que, não sendo sigilosas, dizem tudo sobre a rotina delas", explica. A foto no restaurante de luxo, o carro novo, o telemóvel de última geração. "Se estás naquele restaurante, sabemos que não estás em casa e sabemos que tens dinheiro". Sem querer, o utilizador está a convidar a um assalto à sua própria residência.

O mito do computador e a segurança do "bolso"

Contra o senso comum, Cláudio Oliveira surpreende quando o tema é a banca digital. Muitos evitam aceder ao banco pelo telemóvel, preferindo o computador de casa ou evitando o Wi-Fi público. "É um erro", garante. "O mito de que o Wi-Fi público é perigoso para ir ao banco cai por terra se usarmos a App oficial".

O telemóvel, se não tiver o software alterado, é, na verdade, uma fortaleza mais segura do que o PC. "No computador tens keyloggers (vírus que gravam o que escreves), extensões de navegador e distrações. No telemóvel, as apps bancárias são ambientes fechados e assinados digitalmente".

E deixa um detalhe técnico fascinante: o GPS. "Quando abres a app do banco, o símbolo de localização ativa-se. O banco verifica a tua localização exata e a hora via satélite, não a do telemóvel. Se houver discrepância, a conta bloqueia". É este nível de validação biométrica e geográfica que torna o telemóvel, ironicamente, o sítio mais seguro para mexer no dinheiro.

O mesmo se aplica aos QR Codes, hoje presentes em todas as mesas de restaurante. Cláudio admite que apontar a câmara pode levar a um site malicioso, mas acalma os utilizadores móveis: "No telemóvel é muito difícil injetar código porque os browsers (Chrome, Safari) têm limitações e pedem permissões. Já no PC, o risco seria bem maior".

Senhas, pen física e a burla das faturas

Sobre as palavras-passe, Cláudio é perentório: mais vale uma senha simples como "12345" com Autenticação de Dois Fatores (2FA), do que uma senha complexa sem proteção extra. "A teoria diz que a camada extra é o que te salva".

Contudo, a segurança máxima, explica, vai além do telemóvel. "Existe a chave física, uma pen. O Google já permite isso. Só quem tiver a pen na mão é que entra na conta. É seguro? É. É prático? Não", admite.

No mundo empresarial, o perigo é mais sofisticado e nem sempre é "culpa" da IA. Cláudio destaca a burla da interceção de faturas: "Os burlões intercetam os e-mails entre fornecedor e cliente. Enviam uma fatura exatamente igual, mas com o NIB alterado. A empresa paga, acha que cumpriu, mas o dinheiro foi para o burlão". Aqui, a Inteligência Artificial ajuda, mas o crime ainda precisa da mão humana para funcionar.

"Se é grátis, o produto és tu"

Quando a conversa toca no entretenimento gratuito: os sites de streaming para ver futebol ou filmes sem pagar, ou até conteúdos pornográficos, Cláudio não usa meias palavras: "Vai dar tenda".

"Onde as coisas são grátis, o produto és tu", atira. Estes sites são portas abertas para publicidade maliciosa. E se clicarmos sem querer? "Não há milagres. A solução é preventiva: não frequentes sites que saem do teu controlo. Se foste para lá, já perdeste".

Para manter a segurança, há uma "chatice" necessária: as atualizações. Cláudio rejeita a desculpa de que "o telemóvel fica lento". "Quem somos nós para achar que sabemos mais que o engenheiro que criou o sistema? Se ele mandou a atualização, é porque é preciso tapar um buraco. O telemóvel fica mais lento? Fica, porque passa a fazer mais verificações de segurança".

E para quem teme o Ransomware (o sequestro de dados que bloqueia o computador e pede resgate), o informático deixa uma dica valiosa: "O Windows 11 já tem uma ferramenta nativa gratuita anti-ransomware. Se estiver bem configurada, a probabilidade de acontecer é menor".

"O resto são chinelos": A falta de polícia digital

A terminar, o especialista deixa uma crítica dura à falta de preparação das autoridades. Vivemos num país onde existem mais dispositivos móveis do que automóveis, mas a fiscalização não acompanhou a mudança.

"Temos uma Brigada de Trânsito para os carros, mas não temos um departamento de cibersegurança musculado para os telemóveis", lamenta. Salvo raras exceções na GNR e na PJ, a resposta é lenta e escassa. "Tirando os russos, os israelitas e os norte-coreanos, que têm exércitos digitais, o resto dos países são 'chinelos'", ironiza.

Ainda assim, a "dica de ouro" em caso de ataque é clara: primeiro a Polícia, depois o técnico. "A queixa deve ser sempre feita, mesmo que se ache que não vai dar em nada. Só depois se deve procurar uma empresa certificada para tentar recuperar os dados".

Cauteloso, pragmático e sempre desconfiado, Cláudio Oliveira despede-se com a mesma ironia com que nos enviou o seu avatar desenhado: "Não percebo nada disto. Tudo o que disse foi criado pelo ChatGPT. Eu sou uma Inteligência Artificial".

Pelo sim, pelo não, o melhor é seguirmos os conselhos dele. Mesmo que venham de um desenho.