Sair do país de origem é uma das decisões mais importantes da vida de uma pessoa. Há quem saia por necessidade e volte algum tempo depois e há quem se habitue a uma nova vida e já não se veja longe dali. Luís Miguel Ribeiro é natural de Penafiel e há uma década que vive do outro lado do mundo.

Foi a Austrália que escolheu como o seu destino. Mas não foi ao acaso nem “totalmente às cegas”. A esposa tem a dupla nacionalidade, o que fez com que pensassem nessa possibilidade. Foi em 2012 que viajaram só com um bilhete de ida, após a crise que se fez sentir “muito” nessa altura e que causou “uma situação bastante complicada em termos de emprego”.

Em Portugal, Luís Miguel Ribeiro era treinador de futebol e tinha uma sapataria, além de dar aulas de Educação de Física. “Nunca dei aulas na Austrália. Em princípio, sabia que vir para cá seria quase começar do zero. Uma pessoa vai, experimenta e é o que aparece, é um país diferente. Se quisesse dar aulas cá tinha de ter um mestrado, tinha de ir estudar porque é um programa completamente diferente. Para uma pessoa vinda da Europa, o mais aproximado é mesmo o sistema inglês, como falam a língua e é um sistema mais parecido, mas para quem não for falante da língua de raiz é muito difícil”, conta, recordando que chegou também “a estar envolvido no futebol”.

No entanto, “a vida tomou um curso diferente”. O penafidelense trabalhou na construção e voltou-se, depois, para a área da restauração durante “muitos anos”. Passou por uma cadeia de restaurantes portugueses de frango pela “facilidade da língua” e, atualmente, tem um negócio próprio de cafetaria/pastelaria com a esposa. A família também aumentou: nasceu a Sofia e a Ema, com seis e dois anos.

A parte mais difícil, conta, é o “fator social, cultural”. “Ficamos quase quatro anos sem ir a Portugal e agora estivemos há pouco e notamos uma diferença cultural muito grande. Aqui acontece tudo muito cedo. Abro o meu negócio às 07h30, trabalho das 07h00 até às 15h00. Depois do almoço não é um mercado tão forte. Em Portugal, é impossível um café que feche de tarde. O sistema da construção também começa cedo. Ainda há um espaço durante a tarde bastante aproveitável. Numa altura, estávamos a trabalhar numa zona mais perto da praia e eu acabava o trabalho às 16h00 e ainda dava para ir dar um mergulho e apanhar sol”, conta, referindo que “uma pessoa vem com horários e rotinas diferentes e tem de se habituar a uma realidade diferente”.

O primeiro ano foi “muito difícil”, mas Luís Miguel Ribeiro acreditava que tinham “de dar uma oportunidade à Austrália”. “Acabamos por nos adaptar e viver mais ‘à australianos’. Agora, temos as meninas e existe a rotina de levar à escola, sair do trabalho… Se uma pessoa se fechar muito na comunidade sente-se mais essa dificuldade de adaptação”, acrescenta.

A família da esposa está também na Austrália, mas os familiares de Luís Miguel Ribeiro estão todos em Portugal e, por isso, a comunicação é “mais difícil”, já que a diferença é de 11 horas. Mas arranjam sempre tempo. Por exemplo, a avó, quando quer falar com as netas, acorda um pouco mais cedo, pelas 07h30, para falar com elas antes de irem para a cama e têm também um grupo de mensagens nas redes sociais através do qual vão trocando fotografias e dando novidades.

“Eu costumo dizer para as pessoas irem à luta e continuarem. Quando uma pessoa decide sair do país, é uma das decisões mais difíceis da vida. No nosso caso, correu tudo bem, foi uma decisão acertada”, conclui.